MS ainda tem 93,5% do potencial de biometano da cana a explorar (Portal Energia e Biogás)

Mato Grosso do Sul aproveita apenas 6,5% do potencial de biometano de suas usinas de cana e tem na vinhaça seu maior ativo energético ocioso, aponta ABREN

Em apresentação no Bio Energy Summit 2026, em Campo Grande (MS), Yuri Schmitke, presidente da associação, mostrou que as usinas sucroenergéticas já instaladas no Estado reúnem potencial de 126 milhões de m³ de biometano por safra, o equivalente a 345 mil m³ por dia

Campo Grande (MS), 21 de setembro de 2026 – O presidente executivo da Associação Brasileira de Energia de Resíduos (ABREN), Yuri Schmitke, apresentou na última quarta-feira (16), durante a 8ª edição do Bio Energy Summit, realizado em Campo Grande (MS), um diagnóstico do potencial de aproveitamento energético dos resíduos agroindustriais sul-mato-grossenses. Na palestra “Aproveitamento Sustentável de Resíduos Agroindustriais”, Schmitke defendeu que o gargalo do Estado não é a disponibilidade de matéria-prima, mas a conversão desse estoque de resíduos em projetos com escala e viabilidade econômica.

O ponto central da apresentação foi a vinhaça, resíduo da produção de etanol. Mato Grosso do Sul tem 20 usinas sucroenergéticas e 800 mil hectares de cana distribuídos em 42 municípios. Segundo Schmitke, esse parque reúne potencial de 126 milhões de m³ de biometano por safra, o equivalente a 345 mil m³ por dia. Hoje, o que efetivamente opera corresponde a 8,16 milhões de Nm³ por ano, ou apenas 6,5% desse potencial.

“A vinhaça já está coletada, canalizada e concentrada dentro da usina. É o substrato de menor custo logístico do país e, em Mato Grosso do Sul, o menos explorado”, destacou o presidente da ABREN. 

No recorte nacional, o setor de biogás como um todo tem potencial de 86 bilhões de m³ por ano, dos quais cerca de 5% são aproveitados.

Mato Grosso do Sul reúne, segundo o levantamento apresentado por Schmitke, um conjunto de cadeias produtivas que nenhum outro estado concentra no mesmo raio logístico: valor bruto da produção agropecuária de R$ 77,9 bilhões em 2025 (7º maior do país), 52 milhões de toneladas de cana moída na safra 2025/26 (4º maior produtor nacional), 5 bilhões de litros de etanol, 18,8 milhões de cabeças de gado bovino (5º maior rebanho do país), cerca de 300 granjas de suínos, 78,2 milhões de frangos abatidos apenas entre janeiro e maio de 2026 e cerca de 50 indústrias de fécula de mandioca. 

“São seis cadeias diferentes, mas um mesmo denominador: o resíduo orgânico biodigerível disponível”, afirmou.

O Estado ocupa atualmente a 6ª posição nacional em número de plantas de biogás, com 107 unidades, mas fica fora do Top 10 em volume, produzindo 0,26 milhão de Nm³ por dia. A escala média por planta em Mato Grosso do Sul é de 2,4 mil Nm³/dia, um terço da média brasileira, de 7,5 mil Nm³/dia. O perfil de substrato também é o mais agroindustrial do país: 96% do biogás produzido no Estado vem da agropecuária e da indústria, enquanto, no Brasil, 64% do volume vem de resíduos sólidos urbanos e esgoto.

Na avaliação de Schmitke, é esse contraste que define onde estão as oportunidades de investimento no Estado. 

“O caminho para a evolução de Mato Grosso do Sul nesse setor não virá de mais biodigestores pequenos. Virá de projetos de grande porte, mesmo que sejam poucos, ancorados na agroindústria, com agregação de substratos entre usinas vizinhas”, avaliou.

Etanol de milho: a segunda onda de resíduos 

Schmitke apontou o etanol de milho como o fator que altera a viabilidade econômica dos projetos no Estado. Mato Grosso do Sul é o 2º produtor nacional de etanol de milho, e 44% do etanol produzido no Estado na safra 2025/26 já vem dessa rota, ante 25% na safra 2023/24. Após as expansões anunciadas, serão cinco unidades em operação.

O ponto técnico, segundo o executivo, é o calendário: enquanto a vinhaça de cana se concentra em cerca de nove meses de safra, a vinhaça e os efluentes do milho permitem operação contínua nos doze meses. 

“A integração cana e do milho transforma o biodigestor de ativo sazonal em ativo de base. Isso muda a curva de receita, o dimensionamento do projeto e, principalmente, a percepção de risco de quem financia”, explicou. 

A Atvos anunciou um plano de investimentos de R$ 2,36 bilhões no Estado, com duas plantas de etanol de milho, em Nova Alvorada do Sul e Costa Rica.

Os projetos já contratados quintuplicam a produção — e ainda deixam 65% do potencial sem projeto

O levantamento apresentado pela ABREN mapeou três plantas em operação e dois projetos contratados em Mato Grosso do Sul. Em operação estão as unidades da SF Agropecuária, em Brasilândia (4,38 milhões de Nm³/ano), da Adecoagro, em Ivinhema (2,40 milhões), e da JBS, em Campo Grande (1,38 milhão). Contratados ou em implantação até 2028 estão o projeto da Atvos em Nova Alvorada do Sul (28 milhões de m³/ano, com investimento de R$ 350 a R$ 360 milhões e operação prevista para o fim de 2026) e a ampliação da Adecoagro em Ivinhema (8,55 milhões de m³/ano, com aporte de R$ 225 milhões, elevando o uso da vinhaça de 5% para 20% até 2027).

Somados, os projetos contratados levam a capacidade de 8,16 para 44,71 milhões de m³ por ano, um crescimento de 5,5 vezes. Ainda assim, 81,29 milhões de m³ por ano, ou 64,5% do potencial das usinas já instaladas, seguem sem qualquer projeto associado.

A proposta: Mato Grosso do Sul como pólo agroindustrial de biometano

Para Schmitke, o Estado já reúne os vetores necessários, matéria-prima cativa dentro da planta industrial, crédito outorgado de 85% nas saídas internas e de 90% nas interestaduais para biogás e biometano, a rede da MSGÁS com mais de 560 mil m³/dia, o gasoduto Bolívia-Brasil cruzando o território e o marco federal da Lei nº 14.993/2024, mas precisa endereçar dois gargalos: a ausência de um arranjo tarifário de acesso à rede equivalente à TUSD-verde criada pela ARSESP em São Paulo e a baixa escala média por planta.

Diante desse quadro, a ABREN propôs tratar Mato Grosso do Sul como projeto-piloto de um polo agroindustrial de biometano. 

“O desenho tem três elementos: agregação de substratos entre usinas vizinhas, um arranjo estadual de acesso à rede de gás e contratos de longo prazo lastreados em CGOB. É isso que transforma potencial em projeto financiável”, concluiu o Schmitke.

FONTE: https://energiaebiogas.com/ms-ainda-tem-935-do-potencial-de-biometano-da-cana-a-explorar

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A ABREN integra o Global Waste to Energy Research and Technology Council (GWC) e é associada da Associação Internacional de Resíduos Sólidos ou International Solid Waste Association (ISWA)

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