Não enterre as evidências: a verdade sobre o metano e a energia dos resíduos (Eixos)

De Milão à Flórida, a evidência desmente os mitos que opõem a recuperação energética de resíduos à reciclagem e ao clima, escreve Siegfried Scholz.

Por Siegfried Scholz | 25 de setembro de 2026

Poucos setores são tão mal compreendidos quanto a recuperação energética de resíduos (Waste-to-Energy, WtE), rotulada de suja, obsoleta e incompatível com um futuro de baixo metano.

Boa parte dessa narrativa é desinformação — e, enquanto os mitos circulam, o mundo segue enterrando lixo em aterros e lixões, onde apodrece e libera metano, gás 81 vezes mais potente que o CO₂ em 20 anos (IPCC/AR6).

Ninguém no setor defende queimar o que se pode evitar, reutilizar, reciclar ou compostar. A prioridade é clara: prevenção na fonte, separação, reciclagem, compostagem e digestão anaeróbia.

Mas sempre resta uma fração não reciclável, cujo melhor destino, comprovado mundialmente, é a recuperação energética. Tratar o WtE como vilã apenas protege a verdadeira fonte de metano do setor: o aterro e os lixões.

O primeiro mito a chama de suja e tóxica. A evidência o contradiz. Metais ferrosos e não ferrosos dos resíduos sólidos urbanos (RSU) são recuperados nas usinas — os mesmos que se perdem quando enterrados. Nos Estados Unidos, estudos mostram que suas dioxinas são fração ínfima das liberadas em usinas waste-to-energy, onde NOₓ e SO₂ são controlados e o CO₂ pode até ficar negativo com captura e armazenamento de carbono (CCS).

A questão não é se o WtE é livre de emissões — nenhuma rota é —, mas como se compara às alternativas. Frente a lixões e aterros, vai muito bem.

O segundo mito sustenta que separação e tratamento biológico a tornam desnecessária, sobretudo no Sul Global, onde 50% a 60% dos RSU são orgânicos úmidos.

Compostar é viável só até certo ponto: sempre resta uma fração (cerca de 50% a 60% do total) mais bem tratada por WtE. Milão recicla 52,7% e atinge “aterro zero” ao destinar o que não é reciclado à WtE.

Hangzhou (China) vai além: com reciclagem acima de 40%, trata o orgânico biologicamente e o residual por recuperação energética, alcança aterro zero (UN-Habitat) e cria empregos formais na coleta e triagem, inclusive para grupos de baixa renda — os impactos sobre o setor informal não são inerentes à WtE, dependem do desenho do sistema.

A Alemanha, com proibição de aterro desde 2005, atingiu “zero resíduo para aterro”, com 69% de reciclagem, compostagem e digestão anaeróbia e 31% de recuperação energética. O WtE complementa a compostagem e a digestão; não compete com elas.

O terceiro mito é o “lock-in”. Uma usina térmica de grande porte exige ao menos 100 mil toneladas de RSU por ano e poderia, em tese, gerar capacidade excedente que mine a reciclagem. Isso não ocorre quando ela é dimensionada só para o residual.

Europa e China provam: onde o WtE é integrado — orgânico tratado biologicamente, mais reciclagem e WtE só no residual —, a reciclagem cresce. Altas taxas de reciclagem caminham com o WtE, segundo o Banco Mundial e a UE; no Japão e na Escandinávia, a capacidade já é preenchida por resíduo importado, medida do sucesso da reciclagem. Não interessa ao investidor manter capacidade ociosa.

Na Flórida, West Palm Beach operou por anos sua primeira usina, construiu uma segunda de um milhão de toneladas e planeja uma terceira em cerca de dez anos. E, como a geração de resíduos cresce em muitos países, essas reduções tornam-se ainda mais necessárias.

O quarto mito alega que o WtE não elimina aterros, pois gera resíduos próprios. Mas o tratamento térmico reduz em 90% o volume que chega ao aterro, e o material tratado é inerte.

As cinzas volantes podem ser lavadas, descloradas e coprocessadas em fornos de cimento, recuperando sais industriais e devolvendo material à construção — processos em operação na Escandinávia e na Suíça há mais de vinte anos. Com tecnologia e regulação adequadas, é possível minimizar e até eliminar a necessidade de aterrar RSU.

O quinto mito afirma que fechar incineradores ajudaria a descarbonizar a rede elétrica. Isso confunde o propósito do WtE: tratar resíduos, não gerar energia — embora forneça energia e calor confiáveis e estabilize redes.

A descarbonização elétrica vem da substituição de carvão e gás, que definem as emissões marginais da rede, não do fechamento de usinas. E o net-zero exigirá sumidouros de carbono, para os quais o WtE pode contribuir via CCS.

Daí o mito mais grave: a exclusão silenciosa do WtE do debate sobre o metano. A modelagem por vezes assume que só as frações inorgânicas dos RSU vão para o WtE, como se o orgânico pudesse ser perfeitamente separado. Não pode!

Parte relevante do orgânico sempre será tratado por WtE, e seu potencial de redução de metano precisa ser reconhecido — o mesmo rigor e transparência valendo para os resíduos comerciais e industriais. Com frequência, o único destino comprovado e responsável para o residual é ignorado em avaliações influentes de metano.

A hierarquia dos resíduos não está em debate, pelo contrário. A disputa pela fração residual não é entre WtE e reciclagem. A recuperação energética recupera energia e materiais, controla emissões e pode chegar ao aterro zero e à negatividade de carbono. Decisões dessas exigem evidência e análise honesta de ciclo de vida.

A prova já está em operação — de Milão a Hangzhou, da Alemanha à Flórida, da Escandinávia à Suíça. O metano, ao contrário dos mitos, é real e segue crescendo, sendo que a recuperação energética é parte significativa da solução para mitigação desse gás de efeito estufa.


Siegfried Scholz é presidente da European Suppliers of Waste to Energy Technology (ESWET). Atualmente, ocupa posição de liderança na empresa Kanadevia Inova. Formado como Dipl.-Wirtschaftsingenieur em Ciências Econômicas pelo Karlsruher Institut für Technologie (KIT).

Fonte: eixos | Publicado em 25 de setembro de 2026.

FONTE: https://eixos.com.br/politica/meio-ambiente/nao-enterre-as-evidencias-a-verdade-sobre-o-metano-e-a-energia-dos-residuos/

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A ABREN integra o Global Waste to Energy Research and Technology Council (GWC) e é associada da Associação Internacional de Resíduos Sólidos ou International Solid Waste Association (ISWA)

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