- Excluir modelo significa condenar os detritos a aterros sanitários, opção menos adequada, e até a lixões
- Países que mais reciclam também são os que mais utilizam usinas que transformam o lixo em energia
Nickolas J. Themelis: Professor Emérito de Engenharia da Terra e Ambiental da Universidade Columbia (EUA)
Yuri Schmitke: Presidente Executivo da Associação Brasileira de Energia de Resíduos (ABREN)
A recuperação energética de resíduos, tecnologia que transforma o lixo em energia, é um tema que suscita inúmeras dúvidas. Tal situação é compreensível; afinal, o Brasil não possui nenhuma usina dessa natureza em operação. Diante disso, e em atenção ao artigo “Queima de resíduos é tão insustentável quanto acusação de interesses escusos” (26/2), publicado nesta Folha, cabe esclarecer pontos essenciais ao debate.
Essa tecnologia, chamada de Waste-to-Energy (WtE), não é uma alternativa à reciclagem, mas uma solução complementar para rejeitos não recicláveis, após esgotadas as possibilidades de reaproveitamento material. Excluí-la do debate significa condenar os resíduos a aterros sanitários, opção ambientalmente menos adequada, e até para lixões.
Os dados são claros: os países que mais reciclam também são os que mais utilizam usinas WtE. De acordo com estatísticas do Banco Mundial e da União Europeia, Alemanha, Dinamarca, Suécia, Suíça, Finlândia, Áustria e Países Baixos combinam altas taxas de reciclagem com ampla infraestrutura de recuperação energética e praticamente zero envio de resíduos para aterros.
A opção defendida no artigo, de priorizar aterros com captura de biogás, ignora evidências científicas e a Política Nacional de Resíduos Sólidos. Estudos internacionais indicam que usinas WtE podem reduzir em até 8 vezes as emissões de GEE comparadas com outras soluções, mesmo aquelas com sistemas de captura de metano.
Sobre emissões atmosféricas, levantamento da CEWEP identificou que as usinas WtE na Europa respondem por apenas 0,2% das emissões de dioxinas e furanos, enquanto veículos automotores representam cerca de 35%. Além disso, as emissões de usinas WtE são 70% abaixo das regulações mais rigorosas.
Também não procede o argumento de inviabilidade econômica. A China, com um PIB per capita pouco maior que o do Brasil, investiu mais de US$ 50 bilhões nos últimos 20 anos para ampliar sua capacidade de WtE. A partir de dados da International Solid Waste Association, concluiu-se ainda que os benefícios dessas usinas superam os investimentos em cerca de 125%, considerando-se redução de gastos com saúde pública, mitigação climática e menor contaminação do solo e da água.
No Brasil, o WtE está previsto na Política Nacional de Resíduos Sólidos, que estabelece meta de 994 MW de potência instalada até 2040, referente ao tratamento de cerca de 15% dos resíduos sólidos urbanos. Trata-se de uma política pública vigente e que deve ser cumprida, alinhada à economia circular.
Globalmente, existem cerca de 3 mil usinas WtE em operação. Apenas a América Latina não possui plantas operantes, realidade que decorre menos de limitações técnicas e mais de narrativas ideológicas e informações imprecisas.
O debate sobre resíduos exige responsabilidade técnica e compromisso com a ciência. O WtE desvia de aterros aquilo que não pode ser reciclado, reduz emissões de metano, gera energia limpa e renovável e contribui para a saúde pública.
A Associação Brasileira de Energia Resíduos (ABREN) reafirma seu compromisso com dados científicos, transparência e diálogo. O verdadeiro “acerto de contas” que o país precisa é com a destinação inadequada de resíduos, que ainda persiste.

