Escrito por João Montenegro
Publicado em 13/08/2026
O biometano tem no transporte público uma de suas aplicações mais promissoras no Brasil, podendo atrair até cerca de R$70 bilhões em investimentos, de acordo com Yuri Schmitke, presidente da Associação Brasileira de Energia de Resíduos (Abren).
Em entrevista à BNAmericas, o executivo apresentou os resultados de um estudo que mapeou o potencial do biocombustível em 50 cidades brasileiras com mais de 500.000 habitantes.
Schmitke ainda explicou como um projeto de lei que tramita no Senado Federal poderá, se aprovado, estimular o aumento da produção do biometano no país.
BNAmericas: Quais são as principais conclusões do estudo que a Abren fez sobre o potencial de biometano no transporte público brasileiro?
Schmitke: O estudo aponta que a adoção de um programa nacional de substituição de ônibus a diesel por veículos movidos a biometano nas grandes cidades brasileiras pode atrair até aproximadamente R$ 70 bilhões [US$13,3bi] em investimento, considerando-se a aquisição dos veículos e a expansão da capacidade de produção de biometano.
Essa é a melhor aplicação do biometano no transporte, porque você consegue, duplamente, fazer a descarbonização: não só do metano que é evitado no meio ambiente, mas também a redução das emissões do diesel nesses caminhões, ônibus, caminhão de lixo ou trator no campo.
Hoje o biometano não é tão competitivo quanto o gás natural, mas, quando você faz a diferença do preço convertendo diesel para gás, dobra o valor: você sai de R$2,70 no biometano e vai para R$5,20 no diesel. A gente tem quase o dobro do valor agregado, porque o diesel é muito caro.
Nós avaliamos 50 cidades com mais de 500 mil habitantes. Esse foi o ponto de partida do estudo, porque ali você tem viabilidade para produção de biometano nessas regiões, seja no aterro, seja por meio de resíduos agroindustriais, seja por meio da biodigestão anaeróbica da fração orgânica desses resíduos. A ideia da Abren é mais a biodigestão: você consegue produzir quatro vezes mais biometano por meio dela.
BNAmericas: Quais são os principais obstáculos para ampliar essa produção a partir da biodigestão?
Schmitke: A coleta seletiva funciona bem em classe média, média alta, condomínios. Quando você vai para a periferia, já é mais complexo, até pelo adensamento populacional e a falta de cuidado das pessoas em separar esse resíduo – e falta muito educação ambiental no Brasil para isso ser uma realidade.
Em Brasília [Distrito Federal] e Florianópolis [Santa Catarina], por exemplo, você tem muita coleta seletiva de orgânico, e muitas empresas fazem compostagem: o morador fecha com elas, elas entregam as bombonas, você coloca o orgânico. Mas isso não gera energia; para gerar, precisa de investimento de capital, e esse investimento demanda garantia de que você vai entregar o resíduo orgânico. Essas empresas não têm essa garantia; quem tem é o poder público, que é o titular desses serviços e pode garantir, por concessões, a financiabilidade. É justamente o que a Abren propõe com o Programa Nacional do Metano Zero, no PL [projeto de lei] 3.311, de 2025, que traz a possibilidade de criar o certificado de origem metano zero, lastreado em eletricidade.
BNAmericas: Esse certificado já está vigente?
Schmitke: Não, o PL foi aprovado somente na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado. Ele ainda passará por mais duas comissões do Senado antes de ir para a Câmara dos Deputados. Então, provavelmente, só em 2027.
BNAmericas: Como essa iniciativa dialoga com a Lei do Combustível do Futuro?
Schmitke: O Combustível do Futuro trata de combustíveis, e o resíduo pode virar combustível como pode virar eletricidade. O Metano Zero é eletricidade e térmica; já o Combustível do Futuro vai tratar do CGOB, o Certificado de Garantia de Origem do Biometano. A meta para este ano era 1%, o governo federal baixou para 0,5%, mas esperamos que volte para 1%.
BNAmericas: Esse percentual é sobre o quê, exatamente?
Schmitke: É um percentual sobre o gás natural. Todo o gás natural no Brasil: 1% desse volume tem que ser biometano. Depois vai a três, até chegar a 10% em dez anos.
BNAmericas: E sobre quem recai esse compromisso?
Schmitke: Recai sobre as empresas que produzem e importam gás natural. Essas empresas têm que comprar esse certificado de origem ou produzir biometano. O certificado é emitido pelo produtor e comprado pelo importador ou produtor de gás natural, que depois pode ficar com ele ou vender para consumidores de gás natural que querem dizer que o gás deles é renovável.
BNAmericas: Como o biogás e a recuperação energética podem ajudar a estabilizar o sistema elétrico?
Schmitke: A gente tem 90% do sistema elétrico renovável e precisa, hoje, estabilizar a carga. A recuperação energética e o biogás se propõem a isso, com energia firme dentro de uma cidade – é uma térmica limpa, com filtros sofisticados, que é waste to energy.
(A versão original deste conteúdo foi escrita em português)

