Durante o ENASE 2026, Yuri Schmitke, presidente da ABREN, destacou os gargalos regulatórios e financeiros que ainda travam projetos de biogás, biometano e recuperação energética, e apontou o novo marco regulatório — CGOB, SBCE e PL do Metano Zero — como janela de oportunidade para atrair investimentos e escalar o setor no Brasil
Brasília (DF), 18 de junho de 2026 – O presidente da Associação Brasileira de Energia de Resíduos (ABREN), Yuri Schmitke, destacou nesta quinta-feira (18), durante participação no Encontro Nacional de Agentes do Setor Elétrico (ENASE), que o Brasil possui todos os elementos para transformar resíduos urbanos em infraestrutura energética de escala, mas que a existência de gargalos financeiros, regulatórios e de segurança jurídica seguem impedindo que projetos de biogás, biometano e recuperação energética saiam do papel.
O representante da ABREN integrou o painel ‘Recuperação Energética e Resíduos’ e, quando questionado sobre os principais entraves aos setores, apontou a combinação entre ausência de concessões municipais e mecanismos de compra da energia elétrica para usinas waste-to-energy. “Como são empreendimentos intensivos em capital e de longo prazo, são necessárias garantias para o financiamento, como concessões que paguem o custo da destinação final do resíduo (gate fee) e contrato de venda de longo prazo para a eletricidade”, afirmou.
Para o executivo, o biometano ainda enfrenta um desafio específico: a inexistência de regras claras sobre a quantificação do CO2eq entre as diferentes origens do biogás (atributo ambiental), assim como mais fundos para financiamentos verdes, como o fundo clima, que atendam todo o setor. No campo regulatório, segundo Schmitke, o cenário está em transição: “o Certificado de Garantia de Origem do Biometano (CGOB) entrou em vigor em 2026, o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE) entra em 2027, e o PL do Metano Zero (PL 3.311/2025), incluído no Plano Nacional de Transição Energética (PLANTE), propõe mecanismos de precificação para energia gerada a partir de biodigestão anaeróbia”, explicou.
Sobre a dependência do Brasil de aterros sanitários e lixões, que ainda recebem cerca de 42% dos resíduos gerados no país, Schmitke destacou que é necessário a instalação de aterros sanitários nessas regiões, mas que nas regiões metropolitanas deve-se focar em tecnologias que desviem resíduos orgânicos de aterros, em atendimento ao compromisso Global do Metano assinado pelo Brasil na COP26 e ratificado na COP29. A biodigestão anaeróbia e o waste-to-energy cumprem exatamente esse papel.
Na outra ponta, usinas de recuperação energética (UREs) evitam até oito vezes as emissões em comparação a outras soluções. “Com o SBCE em vigor a partir de 2027, essa equação econômica vai mudar. Projetos que hoje parecem menos competitivos passarão a ter receita adicional associada à mitigação de gases de efeito estufa”, afirmou. O presidente da ABREN lembrou ainda que o metano tem potencial de aquecimento global até 86 vezes superior ao CO₂ em um horizonte de 20 anos, o que torna a captura e o aproveitamento do biogás uma das ações climáticas de maior impacto imediato no setor de resíduos.
Quanto ao biometano, Schmitke avaliou positivamente o novo ambiente regulatório do setor. O CGOB, em vigor desde 2026, garante rastreabilidade e reconhecimento internacional da sustentabilidade do combustível. Já o SBCE criará novas receitas vinculadas às emissões evitadas, enquanto a Taxonomia Sustentável Brasileira — prevista para 2027 — deve facilitar o acesso a crédito com condições diferenciadas para projetos de descarbonização.
‘Esse conjunto de medidas cria as condições necessárias para atrair investimentos, ampliar a infraestrutura de distribuição e consolidar o biometano como uma das principais apostas do Brasil rumo à economia de baixo carbono‘, disse. Para o executivo, o que ainda falta é avançar na regulamentação do PL Metano Zero e garantir mecanismos que viabilizem a geração de eletricidade por meio do biogás da biodigestão anaeróbia e a recuperação energética.
Para que a recuperação energética deixe de ser exceção e passe a integrar a infraestrutura nacional de saneamento e energia, Schmitke apontou a necessidade de combinar metas concretas com instrumentos financeiros adequados. O Plano Nacional de Resíduos Sólidos (PLANARES), por exemplo, já estabelece meta de aproximadamente 994 MW de capacidade instalada em UREs até 2040 e prevê o desvio de cerca de 52% dos resíduos atualmente destinados a aterros.
Em 2027, a URE Barueri, em São Paulo, com 30 MW de capacidade instalada, será a primeira usina de recuperação energética a operar comercialmente no Brasil. O setor já tem cerca de 400 MW em projetos em desenvolvimento e, de acordo com estimativas da ABREN, tem potencial para construir 130 usinas de recuperação energética de resíduos (UREs), totalizando 3,3 GW. Ao mesmo tempo, o país pode receber investimentos de até R$ 181 bilhões para esse setor no modelo project finance, com contratos de longo prazo, garantias de compra de energia e receitas adicionais por créditos de carbono. Porém, “considerando-se as metas do PLANARES e o potencial do Brasil, o país está muito atrasado no desenvolvimento desse setor”, explicou Schmitke.
Referente ao biogás, o especialista destacou que o Brasil conta com mais de 1.725 plantas de biogás em operação e um mercado nacional que atingiu 4,96 bilhões de Nm³ por ano em 2025, com 37% da produção proveniente da biodigestão anaeróbia de resíduos agroindustriais. Apesar do crescimento acelerado do setor, o país ainda aproveita uma fração pequena de seu potencial total.
No caso do biometano, o potencial é ainda mais expressivo: o Brasil tem capacidade estimada para produzir cerca de 44 bilhões de Nm³ por ano, cerca de 27 vezes a produção atual, mas ainda aproveita apenas 3,6% desse potencial. ‘O Brasil precisa integrar a Política Nacional de Resíduos Sólidos, o PLANARES e as políticas de mobilidade urbana em uma estratégia coesa, com crédito verde, BNDES e Fundo Clima voltados para quem produz energia a partir de resíduos’, concluiu Schmitke.
Além de Yuri Schmitke, participaram do painel ‘Recuperação Energética e Resíduos’ Heloisa Borges, Diretora de Estudos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis na Empresa de Pesquisa Energética (EPE) e Francisco Olivati, Diretor de Novos Negócios na Interunion. A mediação foi realizada por Hélène Plaisance, Diretora da EREN Biogás.
Sobre a ABREN:
A Associação Brasileira de Energia de Resíduos (ABREN) é uma entidade nacional, sem fins lucrativos, que tem como missão promover a interlocução entre a iniciativa privada e as instituições públicas, nas esferas nacional e internacional, e em todos os níveis governamentais. A ABREN representa empresas, consultores e fabricantes de equipamentos de recuperação energética, reciclagem e logística reversa de resíduos sólidos, com o objetivo de promover estudos, pesquisas, eventos e buscar por soluções legais e regulatórias para o desenvolvimento de uma indústria sustentável e integrada de tratamento de resíduos sólidos no Brasil.
A ABREN integra o Global Waste to Energy Research and Technology Council (Global WtERT), instituição de tecnologia e pesquisa proeminente que atua em diversos países, com sede na cidade de Nova York, Estados Unidos, tendo por objetivo promover as melhores práticas de gestão de resíduos por meio da recuperação energética e da reciclagem. O Presidente Executivo da ABREN, Yuri Schmitke, é o atual Vice-Presidente LATAM do Global WtERT e Presidente do WtERT – Brasil. Conheça mais detalhes sobre a ABREN acessando o site, Linkedin, Facebook, Instagram e YouTube da associação.
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