Brasil destina 42% do lixo de forma inadequada, mas aproveitamento de biogás e biometano avança. Modelo moderno exige reciclagem, compostagem e recuperação energética, escreve Yuri Schmitke

O Brasil ainda enfrenta um desafio estrutural na gestão de resíduos sólidos urbanos. Cerca de 42% do lixo gerado no país tem destinação inadequada, sendo encaminhado para lixões ou aterros sanitários controlados.
Esse dado, por si só, evidencia que o principal desafio brasileiro ainda não é tecnológico, mas sim de saneamento básico: eliminar os lixões e garantir uma destinação ambientalmente adequada. Nesse contexto, os aterros sanitários sempre foram, e continuam sendo, uma infraestrutura essencial.
É essencial reconhecer que os aterros são indispensáveis para a erradicação dos lixões, para a proteção da saúde pública e para a estruturação de um sistema minimamente eficiente de gestão de resíduos no país. Diferentemente das formas inadequadas de disposição de resíduos, os aterros sanitários são empreendimentos de engenharia complexa.
Contam, por exemplo, com sistemas de impermeabilização, drenagem, monitoramento ambiental e tratamento de chorume e lixiviado, evitando a contaminação do solo e dos recursos hídricos. Além disso, possuem sistemas de captação de gases gerados pela decomposição da matéria orgânica, o que reduz riscos ambientais e cria oportunidades energéticas relevantes.
Nesse ponto, os aterros sanitários já desempenham papel estratégico na matriz energética brasileira. Atualmente, cerca de 66% do biogás produzido no país tem origem em aterros sanitários.
O Brasil conta atualmente com mais de 1.500 plantas de biogás em operação, com capacidade instalada de aproximadamente 4,7 bilhões de Nm³ (metros cúbicos normais) por ano, sendo que 63% dessa produção está associada a resíduos urbanos e esgoto, o que demonstra a relevância direta do saneamento nesse segmento .
O aproveitamento energético do biogás de aterro também já é realidade. Existem usinas em operação que somam cerca de 118 MW de capacidade instalada, com destaque para a concentração no estado de São Paulo.
Além da geração de energia elétrica, cresce a produção de biometano, combustível renovável que pode substituir o gás natural. O país já possui dezenas de plantas com tecnologia de purificação, com capacidade de centenas de milhões de metros cúbicos por ano, parte relevante proveniente de aterros sanitários.
Esse avanço é particularmente relevante sob a ótica climática. O metano, principal componente do biogás, é um gás de efeito estufa com impacto até 86 vezes superior ao do CO₂ em um horizonte de 20 anos. A captura e aproveitamento desse gás em aterros sanitários representam uma das formas mais rápidas e eficazes de reduzir emissões no setor de resíduos.
Ainda assim, os aterros sanitários não podem ser vistos como solução única ou definitiva. Mesmo quando bem operados, demandam grandes áreas e funcionam como etapa final da cadeia, sem promover o aproveitamento integral dos resíduos. Esse limite se torna mais evidente nas regiões metropolitanas, onde a escassez de espaço e os custos logísticos pressionam a necessidade de alternativas.
O Brasil precisa, portanto, avançar para um modelo mais moderno e integrado de gestão de resíduos. Isso inclui ampliar a biodigestão anaeróbica da fração orgânica, fortalecer a coleta seletiva e a reciclagem, expandir a compostagem e desenvolver a recuperação energética dos rejeitos. Essas soluções são complementares e permitem reduzir significativamente o volume destinado aos aterros, ao mesmo tempo em que agregam valor econômico e ambiental.
O desvio de resíduos dos aterros, especialmente nas grandes cidades, é também uma estratégia climática. Ao evitar a disposição de matéria orgânica, reduz-se a geração de metano, contribuindo para o cumprimento das metas de descarbonização. Trata-se de uma agenda que combina saneamento, política energética e compromisso ambiental.
Aterros sanitários são, hoje, parte fundamental da solução brasileira para acabar com os lixões. Mas o futuro da gestão de resíduos exige mais do que disposição final adequada. Exige eficiência, diversificação tecnológica e visão de longo prazo.
Yuri Schmitke é Presidente-Executivo da Associação Brasileira de Energia de Resíduos (Abren) e Vice-Presidente LatAm do Waste to Energy Research and Technology Council (WtERT). Mestre em Direito e Políticas Públicas pelo UniCEUB, Schmitke é certificado como International Waste Manager pela International Solid Waste Association (ISWA).

